1.7 A América exporta a democracia para o exterior, mas cultiva o totalitarismo em casa
1.7 America Exports Democracy Abroad, Cultivates Totalitarianism At Home
“Aqueles que podem abrir mão da liberdade essencial para obter um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança.” -- Benjamin Franklin No dia 8 de março de 2005, o Presidente George Bush, citando o progresso no Afeganistão, no Iraque e na Palestina, disse que a democracia começava a se espalhar pelo Oriente Médio e que “o governo autoritário é o último suspiro de um passado desacreditado”. A administração Bush e seus apoiadores se agarraram aos acontecimentos no Oriente Médio para oferecer uma avaliação otimista da reforma democrática e da posição da América na região.
“Those that can give up essential liberty to obtain a little temporary safety deserve neither liberty nor safety.” -- Benjamin Franklin On the 8th of March 2005, President George Bush citing progress in Afghanistan, Iraq and Palestine said that democracy was beginning to spread across the Middle East and that “the authoritarian rule is the last gasp of a discredited past.” The Bush administration and its supporters have seized upon the events in the Middle East to give an upbeat assessment of democratic reform and America’ s standing in the region.
Alguns chegaram a fazer comparações com a queda da Cortina de Ferro, enquanto outros apontam para uma confirmação da política externa de Bush desde o 11 de Setembro.
Some have even gone far as making comparisons with the fall of the iron curtain, while others are pointing to a vindication of Bush’ s foreign policy since 9/11.
No entanto, por trás da retórica, a visão de Bush de exportar a democracia para o Oriente Médio e outras partes do mundo fica muito aquém do próprio padrão democrático que a América usa rotineiramente para desqualificar resultados eleitorais, censurar déspotas e colocar Estados de sobreaviso.
However, behind the rhetoric, Bush’ s vision of exporting democracy to the Middle East and other parts of the world falls way short of the very same democracy standard America routinely employs to dismiss election results, castigate despots, and put states on notice.
Um princípio central da democracia exige que as pessoas escolham representantes legítimos em um ambiente imparcial, livre de intimidação local e de intervenção estrangeira. Bush foi rápido em aplicar esse padrão à Ucrânia e, mais recentemente, ao Líbano.
A central tenet of democracy requires people to choose legitimate representation in an environment that is impartial, free from local intimidation and foreign intervention. Bush was quick to apply this standard to Ukraine and more recently to Lebanon.
No caso da Ucrânia, Bush contrariou esse padrão, já que surgiram provas de que a embaixada dos EUA foi responsável por liderar a "Revolução Laranja" de Yushchenko.
In the case of Ukraine, Bush contravened this standard, as evidence emerged that the US embassy was responsible for spearheading Yushchenko’ s “Orange Revolution”.
No Líbano, o incitamento aberto de Washington e o apoio à "Revolução do Cedro", bem como a sua exigência de que as eleições vindouras não possam ser justas e livres, a menos que o Líbano esteja completamente livre da ocupação síria, cheiram a hipocrisia.
In Lebanon, Washington’ s open incitement and support for the “Cedar Revolution” and its demand that forthcoming elections cannot be fair and free, unless Lebanon is completely free of Syrian occupation stinks of hypocrisy.
Não foram as eleições no Afeganistão, no Iraque e na Palestina realizadas sob ocupação americana e israelense? Não foram os candidatos examinados e aprovados pela América? Não era o ambiente, antes e no dia das eleições, de insegurança e medo? Não foram os resultados eleitorais manipulados e o processo eleitoral encenado e controlado? Claramente, a resposta a todas essas perguntas é um "sim" desafiador. Portanto, as eleições nesses países só podem ser descritas como injustas, ilegais e impostas ao povo.
Were not the elections in Afghanistan, Iraq and Palestine held under American and Israeli occupation? Were not the candidates vetted by America? Was not the atmosphere prior to and on the day of the elections one of insecurity and fear? Were not the election results manipulated and the electoral process staged and managed? Clearly the answer to all of these questions is a defiant “yes”. Hence the elections in these countries can only be described as unfair, illegal and imposed on the people.
Mas, segundo o parâmetro democrático de Bush, as eleições duvidosas no Afeganistão, no Iraque e na Palestina foram um sucesso retumbante. Mesmo pelos padrões do Terceiro Mundo, tais eleições teriam sido declaradas nulas e sem efeito.
But according to Bush’ s democracy yardstick the dodgy elections in Afghanistan, Iraq and Palestine were a resounding success. Even by third world standards such elections would have been declared null and void.
Da mesma forma, Bush deixou de avaliar o Paquistão, o Egito e a Arábia Saudita segundo o seu critério de democracia.
Likewise, Bush has failed to evaluate Pakistan, Egypt and Saudi Arabia against his benchmark for democracy.
O referendo fictício de Musharraf em 2002, a futura farsa presidencial de Mubarak e as eleições municipais sauditas, das quais as mulheres são impedidas de participar, só podem ser vistos como uma acusação contra a democracia.
Musharraf’ s sham referendum in 2002, Mubarak’ s upcoming presidential façade and the Saudi municipal elections, which bars women from participating, can only be regarded as an indictment against democracy.
Em vez de punir esses estados por subverterem a democracia, Bush os recompensou com bilhões de dólares em ajuda e ofereceu críticas comedidas em sua defesa. Isso foi especialmente evidente após o discurso de posse de Bush.
Rather than punishing these states for subverting democracy, Bush has rewarded them with billions of dollars in aid and offered muted criticisms in their defence. This was particularly evident, after Bush’ s inauguration address.
O Departamento de Estado dos EUA apressou-se a garantir aos governantes do Egito, do Paquistão e da Arábia Saudita que eles não eram alvos do seu discurso.
The US State department scuttled to assure the rulers of Egypt, Pakistan and Saudi Arabia that they were not targets of his speech.
Ironicamente, o Irã, que é comparativamente mais democrático do que o Egito e a Arábia Saudita juntos, foi escolhido como alvo de mudança de regime. No entanto, a América está mais preocupada em garantir as enormes reservas de petróleo e gás do Irã do que em promover a democracia no país. Em 1953, a América, preocupada com a nacionalização do petróleo iraniano, removeu o então Primeiro-Ministro eleito, Dr. Mohammad Mossadegh, e o substituiu pelo Xá – um monarquista absolutista.
Ironically, Iran, which is comparatively more democratic than Egypt and Saudi Arabia put together, has been earmarked for regime change. However, America is more concerned about securing Iran’ s huge oil and gas reserves than about nurturing democracy in Iran. In 1953, America worried about the nationalisation of Iranian oil removed the then elected Prime Minister, Dr. Mohammad Mossadegh and replaced him with the Shah – an absolute monarchist.
A obsessão da América em fazer afirmações ousadas sobre a difusão da democracia e da liberdade, enquanto simultaneamente sustenta regimes despóticos, tem uma história notória. Em 12 de março de 1947, o Presidente Truman declarou: "Um dos objetivos primordiais da política externa dos Estados Unidos é a criação de condições em que nós e outras nações possamos encontrar um modo de vida livre de coerção… regimes totalitários impostos a povos livres, por agressão direta ou indireta, minam os alicerces da paz internacional e, por conseguinte, a segurança dos Estados Unidos." vii Desde então, a América, armada com a "Doutrina Truman", passou a sabotar a democracia e a liberdade em todo o mundo muçulmano, em troca da exploração de recursos para as suas multinacionais e da salvaguarda dos seus interesses estratégicos. A América fez isso apoiando todo tipo de autocracias seculares, monarquias e xeicados.
America‘s obsession with making bold claims about spreading democracy and liberty, while simultaneously propping up despotic regimes has a notorious history. On March 12 1947, President Truman said, “One of the primary objectives of the foreign policy of the United States is the creation of conditions in which we and other nations will be able to work out a way of life free from coercion…totalitarian regimes imposed on free peoples, by direct or indirect aggression, undermine the foundations of international peace and hence the security of the United States.” vii Henceforth, America armed with the “Truman Doctrine” proceeded to sabotage democracy and freedom throughout the Muslim world in return for exploiting resources for her multinational corporations and safeguarding her strategic interests. America did this by supporting all manners of secular autocracies, monarchies and sheikhdoms.
A visão de Bush para um mundo muçulmano democrático é a mesma da Doutrina Truman. Em ambas, a exportação da democracia e da liberdade, bem como o apoio a ditaduras, está totalmente subordinado aos interesses corporativos americanos.
Bush’ s vision for a democratic Muslim world is the same as the Truman Doctrine. In both, the exporting of democracy and liberty, as well as the support for dictatorships is totally subservient to American corporate interests.
Os Estados Unidos não são os únicos a promover os seus interesses corporativos sob o disfarce de valores ocidentais. Outras potências ocidentais, sobretudo a Grã-Bretanha, a França e a União Europeia, competem com os EUA no atropelo a esses mesmos valores. A abolição da escravatura no século XIX e o impulso para conceder a independência às colónias no século XX foram motivados exclusivamente pela rivalidade entre as grandes potências, que pretendiam manter os seus preciosos recursos. A exportação de valores ocidentais era a menor das suas preocupações.
America is not alone in promoting its corporate interests dressed up in western values. Other western powers most notably Britain, France and the EU compete with the US in trouncing these values. The banishment of slavery in the 19th century and drive to grant independence to colonies in the 20th century were solely motivated by rivalry between great powers to hold onto their precious resources. Exporting western values was the least of their concerns.
Atualmente, existe uma luta amarga entre a UE e a América pelos recursos do mundo muçulmano, em particular as suas reservas energéticas. Bush, sob o manto da liberdade e da democracia, procura remover aqueles regimes que são pró-europeus ou que olham para a Europa em busca de orientação e assistência. O conflito entre a UE e os EUA pelo petróleo e pelo gás pode ser encontrado em países muçulmanos como o Sudão, Marrocos (questão do Saara Ocidental), Iraque, Afeganistão, Irão, Líbia e os xeicados do Golfo.
Today, there is a bitter struggle between the EU and America over the resources of the Muslim world, in particular its energy reserves. Bush under the cover of freedom and democracy is seeking to remove those regimes that are either pro-European or look towards Europe for guidance and assistance. The EU-US conflict over oil and gas can be found in Muslim countries like Sudan, Morocco (Western Sahara issue), Iraq, Afghanistan, Iran, Libya, and the Gulf sheikhdoms.
Aqueles poucos muçulmanos que ainda se deixam encantar pelos valores ocidentais precisam compreender que as potências ocidentais não têm interesse na libertação do mundo muçulmano. Tampouco têm interesse em conceder aos muçulmanos liberdade e democracia.
Those minority of Muslims who are still enchanted by western values need to realise that the western powers are not interested in the liberation of the Muslim world. Nor are they interested in granting Muslims freedom and democracy.
Esses muçulmanos deveriam dar uma olhada rápida nos assuntos internos dos países ocidentais e logo perceberão que os valores ocidentais são apenas um mito. As leis antiterrorismo na Grã-Bretanha, o Patriot Act nos Estados Unidos, a detenção por tempo indeterminado de muçulmanos em Guantánamo e Belmarsh (Reino Unido) e a humilhação de prisioneiros muçulmanos em Abu Ghraib, Bagram e Basra claramente depreciam esses valores.
These Muslims should take a quick look at the domestic affairs of western countries and they will quickly learn that western values are only a myth. The anti-terror laws in Britain, the Patriot Act in the US, the indefinite detention of Muslims in Guantanamo and Belmarsh (UK) and the humiliation of Muslim prisoners in Abu Ghraib, Bagram and Basra clearly belittle their values.
Quanto aos ocidentais, eles precisam observar com seriedade como os seus governos estão usando a guerra ao terrorismo como pretexto para promulgar leis draconianas que estão transformando as suas sociedades liberais em sociedades totalitárias.
As for westerners, they need to take a serious look at how their governments are using the war on terrorism as an excuse to enact draconian laws that are transforming their liberal societies into totalitarian ones.
Medidas como a prisão sem julgamento, o internamento de cidadãos, a tortura extrajudicial, a concentração de poder nas mãos do executivo, conselheiros governamentais não eleitos, ministros que se sobrepõem ao judiciário, restrições mais severas à imprensa, notícias pré-fabricadas, a supressão de informações e a intrusão na privacidade pessoal atingem o próprio cerne das democracias liberais.
Measures such as imprisonment without trial, internment of citizens, extra judicial torture, concentration of power in the hands of the executive, unelected government advisors, ministers over-ruling the judiciary, greater press restrictions, pre-packaged news stories, suppression of information and intrusion into personal privacy strike at the very heart of liberal democracies.
Quão rapidamente a América e a Europa se transformarão numa fortaleza de totalitarismo depende de os americanos e europeus valorizarem a liberdade e a democracia acima da segurança.
How soon America and Europe transform themselves into a fortress of totalitarianism depends upon whether Americans and Europeans value liberty and democracy above safety.
17 de março de 2005
March 17, 2005