8. A América é invencível
8. America is invincible
Na véspera do século XXI, os Estados Unidos eram a principal potência do mundo. Com o colapso da União Soviética dez anos antes, os EUA enfrentavam muito pouco desafio de qualquer outra nação e eram considerados como tendo alcançado a dominação em todo o espectro. Já não havia nenhuma disputa significativa entre o marxismo e o mercado. Parecia que a democracia liberal ocidental estava se tornando "a forma final de governo humano". Isso levou os arrogantes neoconservadores a desenvolver políticas para garantir que tal cenário continuasse no futuro previsível. Foi esse clima que levou muitos observadores a aceitar a supremacia e a invencibilidade incontestáveis dos EUA. No entanto, uma década depois, isso não poderia estar mais longe da verdade. Uma observação perspicaz do equilíbrio global de poder e da política externa dos EUA sugere um Estados Unidos em declínio.
On the eve of the 21st century the US was the world’s foremost power. With the collapse of the Soviet Union 10 years earlier the US faced very little challenge from any other nation and was considered to have achieved full spectrum dominance. There was no longer any meaningful dispute between Marxism and the market. It looked as though Western liberal democracy was becoming ‘the final form of human government.’ This led to the arrogant Neoconservatives developing policies to ensure such a scenario continued into the foreseeable future. It was this climate that led many observers to accept unrivalled US supremacy and invincibility. However a decade on, this could not be further from the truth. An astute observation of the global balance of power and US foreign policy suggests a faltering US.
A América está lentamente a sangrar até à morte a partir de duas feridas abertas no Iraque e no Afeganistão, que não dão sinais de abrandar. Ambas as guerras já duram mais do que a Segunda Guerra Mundial. O exército dos EUA, o mais avançado tecnologicamente da história, não tem conseguido derrotar grupos de combatentes da resistência sem treino, armados com armamento desenvolvido nos anos 1960. Como resultado, os EUA têm de depender de nações regionais para evitar um constrangimento. Os EUA recorreram à assistência síria e iraniana por canais secretos para manter a estabilidade. É através do Irão que a estabilidade chegou ao sul do Iraque, e isto foi conseguido através de dois aiatolás iranianos: o Aiatolá Sistani e Abdul Aziz al-Hakim, líder do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica (SCIR). Abdul Aziz al-Hakim tem 10.000 soldados à sua disposição e tem pressionado agressivamente em favor do federalismo para as regiões do sul, pedindo a fusão de nove províncias. A declaração de Hakim a favor de uma maior autonomia xiita coincide com o plano dos EUA para a dissolução do Iraque. Esta foi a principal razão pela qual o relatório Baker-Hamilton apelou ao envolvimento do Irão e da Síria, porque o Irão é, especificamente, o lar da lealdade do sul do Iraque.
America is slowly bleeding to death from two open wounds in Iraq and Afghanistan that show no signs of abating. Both wars have now lasted longer than World War 2. The US army, the most technologically advanced in history has been unable to defeat groups of untrained resistance fighters using weapons developed in the 1960’s. As a result the US has to rely on regional nations to avoid embarrassment. The US has enlisted Syrian and Iranian assistance via back door channels to maintain stability. It is through Iran that stability has come to the South of Iraq and this has been achieved through two Ayatollahs from Iran - Ayatollah Sistani and Abdul Aziz al-Hakim the leader of the Supreme Council for Islamic Revolution (SCIR). Abdul al-Aziz Hakim has 10,000 soldiers at his disposal and has aggressively pushed for federalism for the southern regions, calling for nine provinces to merge. Hakim’s declaration for greater Shi’ite autonomy coincides with the US plan of the dissolution of Iraq. This was the primary reason the Baker-Hamilton report called for the engagement of Iran and Syria because Iran specifically is the home for Southern Iraqi loyalty.
É o Irã quem tem mantido a estabilidade no norte e no oeste do Afeganistão, região que faz fronteira com o Irã, e tem impedido que a resistência pashtun se expanda para essas áreas, o que tem ajudado os Estados Unidos.
It is Iran who has maintained stability in Northern and Western Afghanistan which borders Iran and has prevented the Pushtun resistance from expanding into such areas which has helped the US.
Teerã alcançou isso ao realizar uma série de projetos de reconstrução, o que permitiu à OTAN concentrar-se em uma área de resistência muito menor. O Irã foi um fator-chave na derrubada do Talibã e construiu estradas, linhas de transmissão de energia e postos de fronteira, entre outros projetos de infraestrutura. O coronel Christopher Langton, chefe do Departamento de Análise de Defesa do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, em Londres, afirmou que o Irã é um país importante para a futura reconstrução e desenvolvimento do Afeganistão: "Eles estão intimamente ligados pelos esforços contra o Talibã no passado, mas também por causa da influência que o Irã pode exercer ali junto à população hazara [que, como os iranianos, é muçulmana xiita]. E no setor de desenvolvimento, já existem projetos dos quais o Irã participa; por exemplo, a estrada que vai de Bandar Abbas, no Golfo Pérsico, passando pelo Afeganistão até a Ásia Central, é um projeto muito, muito importante para o futuro do Afeganistão... Há toda uma lista de questões políticas, econômicas e de segurança que conectam o Afeganistão e o Irã."
Tehran has achieved this by carrying out a number of reconstruction projects which has allowed NATO to work on a much smaller area of resistance. Iran was a key factor in the overthrow of the Taliban and has built roads, power transmission lines, and border stations, among other infrastructure projects. Colonel Christopher Langton, who heads the Defense Analysis Department at the International Institute for Strategic Studies in London, said Iran is an important country in the future reconstruction and development of Afghanistan, ‘They are being closely linked by efforts against the Taliban in the past, but also because of the influence that Iran can bring there with the Hazara population [who, like Iranians, are Shi'a Muslims]. And in the development sector, there are already projects which Iran is involved in -- for instance, the road from Bandar Abbas on the Persian Gulf up through Afghanistan to Central Asia is a very, very important project for the future of Afghanistan…There is a whole list of political, economic, and security issues which connect Afghanistan and Iran.
Isto levou Richard Haass, presidente do think tank mais poderoso dos EUA, a comentar: "a era da dominação americana no Oriente Médio chegou ao fim e uma nova era na história moderna da região teve início. Ela será moldada por novos atores e novas forças que competem por influência, e para dominá-la, Washington terá de depender mais da diplomacia do que do poderio militar. Os EUA enfrentam inúmeros desafios em regiões do mundo que, apenas uma década atrás, eles dominavam completamente. No Oriente Médio, além de precisarem da ajuda de representantes regionais, a região está gradualmente deixando de ser uma região unipolar, na qual os EUA desfrutam de hegemonia incontestada, para se tornar multipolar. Os EUA enfrentam cada vez mais a concorrência da China e da Rússia pelo acesso ao petróleo do Oriente Médio. Os EUA estão agora competindo cada vez mais com a Índia, o Japão e a União Europeia pela maior parte do ouro negro da região. A Grã-Bretanha também conseguiu frustrar projetos americanos sob o disfarce de parceria e cooperação. Graham Fuller, ex-vice-presidente do National Intelligence Council, descreveu a situação difícil da América quando escreveu na edição da revista The National Interest: "diversos países têm empregado uma multiplicidade de estratégias e táticas destinadas a enfraquecer, desviar, alterar, complicar, limitar, atrasar ou bloquear a agenda Bush por meio da morte por mil cortes."
This has prompted Richard Hass the head of the most powerful US think tank to comment: ‘the age of US dominance in the Middle East has ended and a new era in the modern history of the region has begun. It will be shaped by new actors and new forces competing for influence, and to master it, Washington will have to rely more on diplomacy than on military might. The US is facing numerous challenges in regions of the world which only a decade ago it completely dominated. In the Middle East apart from needing the help of regional surrogates, the Middle East is gradually shifting from being a uni-polar region in which the US enjoys uncontested hegemony to a multi-polar region. The US is facing more competition from China and Russia over access to Middle East oil. The US is now increasingly competing with India and Japan as well as the European Union for the lion's share of the regions black gold. Britain has also managed to foil American projects under the guise of partnership and co-operation. Graham Fuller former vice chairman of the National Intelligence Council described America’s predicament when he wrote in the issue of the National Interest, ‘diverse countries have deployed a multiplicity of strategies and tactics designed to weaken, divert, alter, complicate, limit delay or block the Bush agenda through death by a thousand cuts.
A Grã-Bretanha, sob o mandato de Tony Blair, frustrou a tentativa dos Estados Unidos de derrubar o presidente Kabbah, de Serra Leoa, e trabalhou com afinco para resgatar o governo de Gaddafi das garras dos neoconservadores americanos que, após o 11 de Setembro, queriam a mudança de regime na Líbia. No Sudão, os Estados Unidos não conseguiram separar o Sudão do Sul por causa da crise de Darfur, que foi usada pela França e pela Grã-Bretanha para interferir no Sudão. Na África do Sul, Blair competiu incansavelmente com os Estados Unidos para proteger a influência britânica e transformou o país no principal sustentáculo das atividades antigovernamentais nos países africanos vizinhos.
Britain under Tony Blair’s tenure thwarted America’s bid to oust President Kabbah of Sierra Leone and worked diligently to rescue Gaddafi’s government from the clutches of American neoconservatives who after 9/11 wanted regime change in Libya. In Sudan the US has been unable to separate Southern Sudan due to the Darfur crisis which has been used by France and Britain to interfere in Sudan. In South Africa Blair competed tirelessly with the US to protect British influence and made the country the mainstay of anti-government activities in neighbouring African countries.
Os EUA também enfrentam a perspectiva de serem deixados de lado, pois a China assumiu a liderança no desenvolvimento africano ao concluir mais de 100 acordos, no valor de mais de 20 bilhões de dólares, para garantir um fornecimento estável de petróleo.
The US is also facing the prospect of being left out to dry as China has taken leadership on African development by completing over 100 deals, worth over $20 billion, to secure a stable supply of oil.
No subcontinente indiano, o domínio dos EUA foi contido, uma vez que a Grã-Bretanha reafirmou sua influência sobre a Índia com a ascensão do Partido do Congresso em 2004. A derrota do Partido Bharatiya Janata (BJP), pró-americano, foi um duro golpe para os interesses americanos. No Paquistão, os EUA foram forçados a dividir o poder com a Grã-Bretanha para salvar a popularidade em declínio do General Musharraf.
In the Indian Subcontinent US dominance has been stifled as Britain reasserted its influence over India through the ascendancy of the Congress Party in 2004. The defeat of the pro-American Bharatiya Janata Party (BJP) was a severe blow to American interests. In Pakistan the US was forced to share power with Britain to salvage the declining popularity of General Musharraf.
Rússia e China estão se desenvolvendo rapidamente sem seguir o exemplo da democracia liberal ocidental. No entanto, é a Rússia que, ao longo do último ano, optou por desafiar abertamente o Ocidente, bem como os Estados Unidos, em praticamente todas as ocasiões, seja plantando uma bandeira no leito do mar sob a calota polar ártica, testando a enorme bomba de ar de artilharia ou contestando a instalação, no leste da Europa, dos sistemas americanos de defesa de alerta antecipado. A Rússia começou a se reinventar como uma potência regional, após reconquistar o Cazaquistão e o Uzbequistão da influência americana e conseguir frear a influência das três revoluções na Ásia Central. Os Estados Unidos, depois de quase 20 anos sem nenhum rival, enfrentam agora a sombria perspectiva de um desafio de uma nação com as maiores reservas de gás do mundo e reservas petrolíferas substanciais.
Russia and China are rapidly developing without following the example of Western liberal democracy. However, it is Russia, which over the last year has opted to openly challenge the West as well as the US at practically every turn, whether by planting a flag on the seabed beneath the Arctic icecap, testing the massive ordnance air blast bomb or disputing the sitting of US earlywarning defence systems in eastern Europe. Russia has begun re-inventing itself as a regional power, after winning back Kazakhstan and Uzbekistan from America’s grip and managing to stop the influence of the three revolutions in central Asia. The US after nearly 20 years of having no rival is now facing the grim prospect of a challenge from a nation with the world’s largest gas reserves and substantial oil reserves.
Os EUA também estão perdendo o controle sobre a América Latina, que essencialmente transformaram em seu quintal desde a época da Doutrina Monroe, em 1823. A América impediu que todos os estados europeus interferissem no continente americano e ameaçassem os interesses dos EUA. Devido à hegemonia dos EUA, a América Latina permaneceu fora do domínio do imperialismo europeu.
The US is also losing its grip on Latin America which it essentially turned into its back yard since the time of the Monroe declaration in 1823. America prevented all the European states from interfering in the American continent, and from threatening the interests of the US. Due to US hegemony, Latin America remained outside the grip of the European imperialism.
No entanto, com a eleição de governos de esquerda na Venezuela, no Brasil, na Argentina, no Uruguai, na Bolívia, no Chile e na Nicarágua, os EUA enfrentam, pela primeira vez, a ameaça de governos independentes que seguem uma agenda própria, separada da de Washington. Nações como Venezuela, Brasil e Bolívia nacionalizaram serviços públicos essenciais e desenvolveram uma alternativa às instituições dominadas pelos EUA, como o FMI e o Banco Mundial, na forma de sua própria versão: o Banco do Sul. Depois de quase 200 anos, a hegemonia dos EUA está sendo abertamente desafiada por líderes independentes e populares no continente americano.
However, with the elections of left wing governments in Venezuela, Brazil, Argentina, Uruguay, Bolivia, Chile and Nicaragua, the US for the first time is facing the threat of independent governments who are following an independent agenda separate to Washington. Nations such as Venezuela, Brazil and Bolivia have nationalised key utilities and have developed an alternative to US dominated institutions such as the IMF and World Bank to their own version – Bank of the South. After nearly 200 years the US is finding its hegemony being openly challenged by popular independent leaders in the American continent.
Os Estados Unidos também estão perdendo o controle de sua hegemonia econômica, que desenvolveram desde o dia em que entraram na Segunda Guerra Mundial. A economia americana costumava ser a potência mundial, mas hoje está sendo deixada para trás por economias emergentes. Atualmente, ocupa o terceiro lugar em crescimento econômico, atrás da China e da Índia. Esse problema é ainda agravado pela contínua demanda da América por mais petróleo.
The US is also losing its grip on its economic hegemony which it developed from the day it entered World War 2. The American economy used to be the world’s powerhouse, but today it is being left behind by emerging economies. It stands in third place now behind China and India in economic growth. This problem is further compounded by America’s continued demand for greater oil.
A maior ameaça econômica para a América vem da China, e as duas nações já mantêm uma relação complexa. As empresas americanas estão ansiosas para alcançar a população chinesa de 1,5 bilhão de pessoas, enquanto, ao mesmo tempo, 70% dos bens chineses acabam em solo americano. A China tem se beneficiado mais dessa relação do que os Estados Unidos, acumulando mais de 1,2 trilhão de dólares em reservas em dólar. As empresas domésticas americanas, por outro lado, não conseguem igualar os preços baixos chineses por uma mão de obra de qualidade, e isso fez com que o déficit comercial dos EUA disparasse para quase 1 trilhão de dólares. Os EUA financiam esse déficit emitindo títulos do Tesouro, dos quais a China é a maior compradora do mundo depois do Japão, com 502 bilhões de dólares, ou 20% da dívida externa total dos EUA. Soma-se a isso o fato de que o próprio boom econômico do qual a América se beneficia está aumentando a demanda chinesa por petróleo. A relação entre os dois países é interdependente, algo sobre o qual os EUA não têm controle total e, por isso, não podem ditar os termos com facilidade.
America’s biggest threat economically comes from China and already both nations have a complex relationship. US companies are eager to tap into the 1.5 billion Chinese population, whilst at the same time 70% of Chinese goods end up on US shores. China has benefited more from this relationship than the US by accumulating over $1.2 trillion in dollar reserves. Domestic US companies on the other hand are unable to match Chinese low prices for quality workmanship and this has led the US trade deficit to balloon to nearly $1 trillion. The US funds this by issuing treasury bonds, of which China is the world’s largest purchaser after Japan at $502 billion, 20% of total US foreign debt. Added to this is that the very economic boom America is benefiting from is increasing demand for oil by China. The relationship between the two is interdependent which the US does not have full control over and cannot easily dictate terms.
O fiasco das guerras no Iraque e no Afeganistão abalou seriamente o prestígio dos Estados Unidos em todo o mundo.
The debacle of the Iraq and Afghanistan wars has severely dented US prowess around the world.
Os Estados Unidos, longe de serem invencíveis, têm se revelado cada vez mais dependentes de outros e estão afundando em um mar de miséria interna. Estatísticas do FBI divulgadas em 2005 mostram que um crime era cometido a cada 22 segundos nos EUA, com um assassinato a cada 31 minutos, um estupro a cada 5 minutos e um roubo a cada minuto.
The US rather than being invincible has been exposed as being ever more reliant upon others and is drowning in a sea of misery domestically. FBI statistics highlighted in 2005 show that a crime was committed every 22 seconds in the US, with a murder committed every 31 minutes, a rape every 5 minutes and a robbery every minute.
Os Estados Unidos estão longe de ser invencíveis; eles estão descobrindo que os dias do seu império estão rapidamente se desgastando.
The US is far from invincible; it is finding its days of empire are fast eroding.
Reference: Mitos Geopolíticos - Adnan Khan