0.5 Situando a Palestina: O Marco Metodológico e Intelectual
0.5 Locating Palestine: The Methodological And Intellectual Framework
Este trabalho situa a identidade multicultural e as histórias partilhadas da Palestina numa longa história de toda a região. Situa a história palestiniana nas histórias antiga, clássica, pós-clássica, medieval, moderna inicial e moderna do Oriente Próximo e do Mediterrâneo Oriental. A intenção não é produzir uma forma de história intelectualmente distanciada, mas oferecer uma história socialmente, intelectualmente, culturalmente e politicamente informada e comprometida. Ao procurar abranger o vasto período da história, esta obra liga as questões da história vista de baixo, da memória social, da identidade cultural e da política.
This work locates the multicultural identity and shared histories of Palestine in a very long history of the whole region. It locates Palestinian history in the ancient, classical, post-classical, medieval, early and modern histories of the Near East and Eastern Mediterranean. The intention is not to produce an intellectually detached form of history but rather to offer a socially, intellectually, culturally and politically informed and engaged history. While attempting to cover the vast span of history, this work links questions of history from below, social memory, cultural identity and politics.
Não se trata de uma "história nacionalista" nem de uma narrativa que, partindo da Bíblia, chega até o presente para legitimar uma "nação palestina", embora eu esteja plenamente consciente do poder da história de criar legitimidade nacional e política no presente. "Nação" e nacionalismo são invenções e construções modernas, e sou altamente cético quanto à utilidade de um termo político como "nação" ao longo de uma vasta extensão da história. Naturalmente, o processo de "invenção nacional" e de construção de imagens não se restringe à Palestina moderna ou aos palestinos. É comum a todas as entidades e agrupamentos nacionais modernos, e constitui um ingrediente importante tanto do nacionalismo quanto da criação e manutenção dos Estados-nação. A construção da nação e a invenção da tradição foram uma prática típica europeia, que consistia em usar a memória coletiva de forma seletiva, manipulando certos fragmentos do passado nacional e religioso, suprimindo outros e exaltando e mobilizando outros de maneira inteiramente funcional e para fins políticos; assim, a memória mobilizada não é necessariamente autêntica, mas sim politicamente útil (Said 1999: 6‒7). Os diferentes modos modernos de construção nacional e de criação de mitos nacionalistas foram objeto de extensa reavaliação crítica nas obras de Benedict Anderson (1991: 6, 11‒12), Eric Hobsbawm (1990; Hobsbawm e Ranger 1996), Anthony Smith (1971, 1984, 1986) e Ernest Gellner (1983). A análise mais abrangente de Hobsbawm sobre a construção nacional e a criação de mitos na Europa encontra-se em *Nations and Nationalism since 1780*. Publicada em 1990 com o subtítulo *Programme, Myth, Reality*, sua obra trata da "invenção da tradição", da criação da cultura nacional e da construção de identidades nacionais a partir de uma mistura de história popular e mitos históricos (Hobsbawm 1990).
This is not a ‘nationalist history’ or a narrative about the Bible to the present for a ‘Palestinian nation’, although I am fully aware of history’s power to create national/political legitimacy in the present. ‘Nation’ and nationalism are modern inventions and constructions and I am highly sceptical about the utility of a political term such as ‘nation’ across a vast sweep of history. Of course, the process of ‘national invention’ and visualisation is not confined to modern Palestine or the Palestinians. It is common to all modern national entities and groupings, and it is an important ingredient both in nationalism and in the creation and maintenance of nation-states. Nation-building and the invention of tradition was a typical European practice of using collective memory selectively by manipulating certain bits of the national and religious past, suppressing others and elevating and mobilising others in an entirely functional way and for political purposes; thus mobilised memory is not necessarily authentic but rather useful politically (Said 1999: 6‒7). Competing modes of modern nation-building and nationalist myth-making have received extensive critical reappraisal in the works of Benedict Anderson (1991: 6, 11‒12), Eric Hobsbawm (1990; Hobsbawm and Ranger 1996), Anthony Smith (1971, 1984, 1986) and Ernest Gellner (1983). Hobsbawm’s most comprehensive analysis of nation-building and myth-making in Europe is found in Nations and Nationalism since 1780. Published in 1990 with the subtitle Programme, Myth, Reality, his work is about the ‘invention of tradition’, the creation of national culture, and the construction of national identities from a mixture of folk history and historical myths (Hobsbawm 1990).
Em *The Invention of Tradition*, Hobsbawm e Terence Ranger (1996: 1‒14, 263‒283) exploram a maneira como autoridades sociais e políticas da Europa de meados do século XIX passaram a criar tradições supostamente antigas, oferecendo memórias inventadas do passado como forma de construir um novo senso de identidade para governantes e governados.
In The Invention of Tradition Hobsbawm and Terence Ranger (1996: 1‒14, 263‒283) explore the way social and political authorities in the Europe of the mid-19th century set about creating supposedly age-old traditions by providing invented memories of the past as a way of creating a new sense of identity for the ruler and ruled.
Frequentemente, estudiosos judeus israelenses de tendência liberal (Sand 2009; Sternhell 1998; Piterberg 2001, 2008; Rabkin 2006, 2010; Ben-Zeev 2014; Greenstein 2014) criticam as tradições "inventadas" do nacionalismo sionista e o impacto dessa "tradição imaginada" sobre o povo judeu, em vez de se concentrarem nas consequências catastróficas do sionismo para sua principal vítima, o povo indígena da Palestina.
Often liberal Israeli Jewish scholars (Sand 2009; Sternhell 1998; Piterberg 2001, 2008; Rabkin 2006, 2010; Ben-Zeev 2014; Greenstein 2014) critique the ‘nationalist inventive’ traditions of Zionism and the impact of this ‘imagined tradition’ on the Jewish people, rather than on the catastrophic consequences of Zionism for its main victim, the indigenous people of Palestine.
Mas, como esta construção da nação sionista e a invenção da tradição eram típicas das práticas "nacionalistas" europeias de uso da memória coletiva, esta abordagem acadêmica coloca o sionismo entre as tradições "normais" europeias de invenção nacionalista e criação de mitos. Na prática, essa "normalização" e "nacionalização" do sionismo é exatamente aquilo que os ideólogos sionistas sempre defenderam. Além disso, essas estratégias de criação de mitos do sionismo estão longe de ser seus piores aspectos. Em contraste, ler o sionismo de baixo, a partir da perspectiva de sua principal vítima, o povo indígena da Palestina, coloca o sionismo dentro de uma tradição completamente diferente: entre as forças do colonialismo de povoamento europeu moderno, da limpeza étnica, do memoricídio e do genocídio cultural (Masalha 1992, 2012; Pappe 2006; Rashed et al. 2014).
But since this Zionist nation-building and the invention of tradition was typical of European ‘nationalist’ practices of using collective memory, this scholarly approach places Zionism among the ‘normal’ European traditions of nationalist invention and myth-making. In effect this ‘normalisation’ and ‘nationalisation’ of Zionism is exactly what Zionist ideologues have always argued for. Also, these myth-making strategies of Zionism are hardly its worst aspects. By contrast, reading Zionism from below, from the viewpoint of its main victim, the indigenous people of Palestine, places Zionism within an altogether different tradition: among the forces of modern European settler-colonisation, ethnic cleansing memoricide and cultural genocide (Masalha 1992, 2012; Pappe 2006; Rashed et al. 2014).
Além disso, como argumentei em *The Bible and Zionism: Invented Traditions, Archaeology and Post-Colonialism in Palestine-Israel* (2007) e em *The Zionist Bible: Biblical Precedent, Colonialism and the Erasure of Memory* (2013), a história palestina, enquanto história do povo, pode e deve ser escrita independentemente das histórias do Antigo Testamento. Essas obras também trataram das formas como o sionismo procurou validar os seus projetos de colonização e as suas próprias "reivindicações históricas" através de usos e abusos extensivos do texto bíblico. Este tema foi igualmente explorado na obra seminal de Keith Whitelam, *The Invention of Ancient Israel: The Silencing of Palestinian History* (1996). Este livro não pretende revisitar esse terreno nem basear-se no excelente trabalho de Whitelam e na sua eficaz desconstrução de um "continuum histórico" bíblico-até-à-independência para Israel. Pretende antes avançar, recuperando e narrando uma história da Palestina completamente independente dos debates bíblicos e da erudição bíblica. Além disso, embora defenda que a complexa história da Palestina está profundamente enraizada no Antigo Oriente Próximo e no Mediterrâneo Oriental, não se procura aqui imitar as alegações sionistas de uma história longa, "ininterrupta" e ordenada da Palestina.
Furthermore, as I have argued in The Bible and Zionism: Invented Traditions, Archaeology and Post-Colonialism in Palestine-Israel (2007) and The Zionist Bible: Biblical Precedent, Colonialism and the Erasure of Memory (2013), Palestinian history as people’s history can and should only be written independent of the Old Testament stories. These works have also addressed the ways in which Zionism attempted to validate its colonisation projects and its own ‘historical claims’ through extensive uses and abuses of the biblical text. This theme has also been explored in Keith Whitelam’s seminal work, The Invention of Ancient Israel: The Silencing of Palestinian History (1996). This book is not designed to revisit that ground or build on Whitelam’s excellent work and his effective dismantling of a Bible-to-independence ‘historical continuum’ for Israel. It rather seeks to move forward by recovering and narrating a history of Palestine completely independent of the biblical debates and the biblical scholarship. Furthermore, while arguing that the complex history of Palestine is deeply grounded in the ancient Near East and Eastern Mediterranean, there is no attempt here to mimic the Zionist claims of a long, ‘unbroken’ and neat history of Palestine.
Pelo contrário, como este volume demonstrará, o patrimônio multifacetado da Palestina é uma história de estilos misturados e tradições contraditórias; uma história cheia de reviravoltas, de memória e esquecimento, e de supressão e recuperação.
On the contrary, as this volume will demonstrate, the multi-layered heritage of Palestine is a history of mixed styles and contradictory traditions; a history full of twist and turns, of memory and forgetfulness, and of suppression and recovery.