1. Introdução
1. Introduction
Todo louvor e agradecimento são devidos a Allah, o Senhor e Rei da existência, o Misericordioso, o Compassivo, que tem poder sobre todas as coisas. Que a paz e as bênçãos estejam sobre Seu último Mensageiro, Muhammad ﷺ, e sobre sua Família e seus Companheiros.
All praise and thanks are due to Allah, the Master and King of existence, the All-Merciful, Beneficent, who has power over all things. May peace and blessings be upon His final Messenger, Muhammad صلى الله عليه وسلم, and his Family, and his Companions.
A modernidade é uma ameaça ao Islã. É uma ameaça à raça humana. Mas, para compreender isso, precisamos dar um passo atrás.
Modernity is a menace to Islam. It is a menace to the human race. But to understand this, we have to take a step back.
Os historiadores geralmente identificam o século XVI como o início da modernidade. Foi um século de grandes convulsões na Europa, quando a Reforma colocou as seitas cristãs em um conflito amargo, do qual nasceu a era secular. A guerra, o tribalismo e o derramamento de sangue cumpriram o seu papel ao afastar os intelectuais da religião e das escrituras, que passaram cada vez mais a ser vistas como fontes de ignorância e sofrimento. Mas o que substituiria Deus e as escrituras? O que mais poderia ser a fonte da moralidade? O que mais poderia ser a fonte do conhecimento sobre a natureza da existência e sobre o destino último da humanidade?
Historians generally identify the sixteenth century as the beginning of modernity. This was a century that saw great upheaval in Europe, as the Reformation pitted Christian sects in a bitter conflict from which the secular age was born. War, tribalism, and bloodshed did their part to disenchant intellectuals from religion and scripture, which were increasingly seen as sources of ignorance and suffering. But what would replace God and scripture? What else could be the source of morality? What else could be the source of knowledge about the nature of existence and of humanity’s ultimate destiny?
Os primeiros modernistas elegeram as suas próprias mentes para essa posição de autoridade metafísica e mundana. Somente a mente, argumentavam, poderia guiar a humanidade. O sucesso das ciências matemáticas e a filosofia empírica de Isaac Newton pareciam reforçar essa conclusão. Por meio da razão e da observação empírica, a mente humana poderia tornar-se um deus. A mente, ao que parecia, possuía uma capacidade infinita de raciocinar, calcular e descobrir. Todos os mistérios do universo e da natureza humana seriam resolvidos como uma equação. Era apenas uma questão de tempo.
The early modernists elected their own minds to this position of metaphysical and worldly authority. The mind alone, they argued, could guide mankind. The success of the mathematical sciences and Isaac Newton’s empirical philosophy seemed to bolster this conclusion. Through reason and empirical observation, the human mind could become a god. The mind, it seemed, had infinite ability to reason, calculate, and discover. All the mysteries of the universe and of human nature would be solved like an equation. It was simply a matter of time.
Mas o conhecimento era apenas metade da história. O que distinguia os mortais dos deuses não era somente o conhecimento, mas também o poder, isto é, a capacidade de executar a própria vontade e, com isso, remodelar o mundo de acordo com ela. Essa necessidade podia ser atendida pela tecnologia, que poderia ser continuamente desenvolvida e aprimorada. Para os modernistas, isso significava que a tecnologia prometia poder infinito e, portanto, a divindade. Por fim, o homem poderia recriar a si mesmo à sua própria imagem. Também aqui, alcançar o poder ilimitado era simplesmente uma questão de tempo.
But knowledge was only half of the story. What distinguished mortals from gods was not only knowledge but also power, i.e., the ability to enact one’s will and, thereby, refashion the world accordingly. This need could be met by technology, which could be continuously developed and advanced. To the modernists, this meant that technology promised infinite power and, therefore, godhood. Finally, man could recreate himself in his own image. Here again, achieving unlimited power was simply a matter of time.
Esse foco no tempo é a marca do modernismo e sua principal característica: o Progressivismo. À medida que o tempo avança, a humanidade melhora em seu conhecimento e poder. A civilização cresce em racionalidade e moralidade enquanto corre para um futuro utópico que se assemelha ao paraíso celestial descrito em muitos textos religiosos. A humanidade de amanhã é melhor do que a humanidade de hoje. A humanidade de hoje é melhor do que a humanidade de ontem. Essa noção de progresso tornou-se a norma fundamental subjacente a todo o pensamento moderno e uma verdade incontestada, devotamente sustentada tanto pelo leigo quanto pelo intelectual.
This focus on time is the hallmark of modernism and modernism’s chief characteristic: Progressivism. As time marches forward, humanity improves in its knowledge and power. Civilization grows in rationality and morality as it races to a utopian future that resembles the heavenly paradise described in many religious texts. The humanity of tomorrow is better than the humanity of today. The humanity of today is better than the humanity of yesterday. This notion of progress became the grundnorm underlying all modern thought and an unquestioned truth devoutly held by layman and intellectual alike.
Aqui começamos a perceber a base da natureza ameaçadora da modernidade. Progresso significa que a mudança se torna uma virtude em si mesma. A constância, em contraste, torna-se o maior vício. Resistir à mudança é visto como um ataque literal à raça humana. O inimigo número um da modernidade é, portanto, a tradição, já que a devoção à tradição significa, entre outras coisas, resistência à mudança.
Here we begin to see the basis of modernity’s menacing nature. Progress means that change becomes a virtue all unto itself. Constancy, in contrast, becomes the greatest vice. To resist change is seen as a literal assault on the human race. Modernity’s number one enemy, therefore, is tradition since devotion to tradition means, among other things, resistance to change.
A tradição, em qualquer forma que assuma, exige consistência ao longo do tempo. Um compromisso básico com a tradição implica aceitar que alguns princípios são atemporais. Certos valores não podem ser atualizados. Ser devoto a uma tradição requer, de uma maneira ou de outra, apoiar-se no passado, e essa exigência, por si só, coloca a tradição em oposição à modernidade. As tradições culturais, as tradições linguísticas e, sobretudo, as tradições religiosas estão constantemente sob a ameaça de serem arrasadas pela inovação e pela reforma modernas.
Tradition, in whatever form, calls to consistency over time. A basic commitment to tradition means accepting that some principles are timeless. Some values cannot be updated. To be devoted to a tradition requires reliance on the past in one way or another, and that requirement by itself pits tradition against modernity. Cultural traditions, linguistic traditions, and especially religious traditions are constantly under threat of being bulldozed by modern innovation and reform.
A tradição religiosa não tem lugar no mundo moderno. A religião moderna, ou modernizada, não passa de um enfeite no lado do prato principal. A folha de salsa fica na borda do prato, insignificante em todos os aspectos. A modernidade tolera a salsa desde que ela não afete nada. No fim das contas, a modernidade exige que todos se empanturrem com o seu prato principal fumegante. Se alguns decidem beliscar a salsa também, quem se importa? Mas se alguém rejeita o prato principal da modernidade em favor da religião, isso não é permitido. As religiões que quiserem ser mais do que um enfeite não serão toleradas.
Religious tradition has no place in the modern world. Modern or modernized religion amounts to nothing more than a garnish on the side of the main course. The piece of parsley sits on the edge of the plate, inconsequential in every way. Modernity can tolerate parsley as long as it doesn’t affect anything. At the end of the day, modernity requires everyone stuff themselves with its steaming pile of entree. If some choose to nibble on parsley as well, who cares? But if anyone rejects modernity’s main course in favor of religion, this is not allowed. Those religions that want to be more than garnish will not be tolerated.
A questão que se esconde por trás da mente modernista é: quem precisa da religião quando todas as principais questões da vida são (supostamente) respondidas pela modernidade e por suas epistemologias?
The question that sits at the back of the modernist mind is: Who needs religion when all the main questions of life are (supposedly) answered by modernity and its epistemologies?
De onde vieram os seres humanos?
Where did humans come from?
O darwinismo (supostamente) tem a resposta.
Darwinism (supposedly) has the answer.
Como o universo funciona?
How does the universe work?
As ciências físicas (supostamente) têm a resposta.
The physical sciences (supposedly) have the answer.
O que significa ser bom?
What does it mean to be good?
O liberalismo responde a isso: trate os outros como você gostaria de ser tratado. Liberdade e igualdade são os bens supremos.
Liberalism answers this; just treat others how you want to be treated. Freedom and equality are the ultimate goods.
O que tudo isso significa?
What does it all mean?
Não existe significado objetivo. No máximo, criamos nosso próprio significado. No pior dos casos, somos apenas aglomerados de átomos flutuando no vazio do espaço infinito.
There is no objective meaning. At best, we make our own meaning. At worst we are just collections of atoms floating in the void of infinite space
Dessa forma, segundo a mentalidade modernista, a humanidade não tem uma necessidade real de religião, pois a religião não acrescenta nenhum valor substancial. De acordo com essa mentalidade, a única razão pela qual alguém seria religioso seria por algum viés cultural a-racional ou, talvez, por força do hábito.
In this way, according to the modernist mentality, humanity has no real need for religion, as religion adds no substantive value. According to this mindset, the only reason someone would be religious is out of some a-rational cultural bias or, maybe, force of habit.
À luz da modernidade, nada poderia ser mais contrário ao progresso do que os crentes "de mente fechada" que leem "cegamente" textos com mil anos e mantêm uma lei religiosa cânone. A modernidade, portanto, visa destruir este obstáculo religioso ao progresso com um ataque multifacetado que envolve os meios de comunicação, a educação, o direito e a política global. Este ataque é tão abrangente em alcance quanto brutal.
In the light of modernity, nothing could be more contrary to progress than “closed-minded” believers “blindly” reading one-thousand-year-old texts and maintaining canonized religious law. Modernity, therefore, aims to destroy this religious impediment to progress with a multi-faceted assault involving media, education, law, and global politics. This assault is as comprehensive in scope as it is brutal.
O Islã pode, com razão, ser descrito como a antítese da modernidade. Isso se deve em parte ao fato de que os pensadores do Iluminismo europeu nos séculos XVIII e XIX, que desenvolveram a principal filosofia teórica que sustenta a modernidade, viam o Islã como uma versão mais brutal e menos progressista da mesma Igreja estagnada que haviam tão completamente neutralizado. O famoso filósofo ateu francês do século XVIII, Voltaire, por exemplo, caricaturou o Islã como uma religião bárbara. Ele chegou a escrever uma peça, Maomé, satirizando o Profeta Muhammad ﷺ, retratando-o como um tirano fanático e descrevendo seus inimigos, os árabes pagãos, como santos livres-pensadores da razão. Esse Orientalismo amargo coloriu o pensamento de muitos filósofos europeus. O Islã, em suas mentes, era despótico, enquanto a modernidade significava liberdade. O Islã era irracional, enquanto a modernidade valorizava a mente. Acima de tudo, para eles, o Islã significava estagnação e decadência, enquanto sua visão moderna representava mudança contínua e renovação. Além dessa história intelectual, a própria natureza da modernidade entra em conflito com o Islã. Afinal, o Islã é a mais consistentemente tradicional de todas as religiões. A preservação da Sunnah Profética é primordial no Islã, e toda a epistemologia islâmica se baseia na noção de preservar e transmitir o conhecimento do passado, não apenas o conhecimento do tempo da revelação, mas, de fato, o conhecimento do passado desde o início da existência humana, quando Allah criou a humanidade e lhes perguntou: "Não sou Eu o vosso Rabb [ou seja, Senhor e Mestre]?" E toda a humanidade respondeu: "Sim, testemunhamos", conforme descrito na Surata Al-A'raf (versículo 17) do Alcorão. Esse conhecimento primordial do Criador, de Sua Unicidade e de Seu direito de ser adorado é preservado no instinto humano conhecido como fitra. Este é o instinto que impulsiona a humanidade rumo à bondade, à pureza e à retidão, a menos que ele seja corrompido pelas vicissitudes da dunya, corrompido seja pela idolatria (shirk), pelo egoísmo arrogante (nafs), pela luxúria (shahwa), pelos sussurros de satanás (shaytan), ou pelos caprichos e preconceitos falsos (hawa). A prática do Islã serve, funcionalmente, como preservação da fitra, no sentido de garantir a constância na adoração ao Criador somente, sem parceiros. A constância da vontade é igualmente primordial, pois o crente deve assegurar que alinha sua vontade e seus desejos em máxima congruência com a vontade Divina, intencionando sempre o bom agrado de Allah (ridwan).
"...e a vitória não vem senão de Allah, o Poderoso, o Sábio."
“...and victory is not except from Allah, the Exalted in Might, the Wise.”
Ali 'Imran (Q3:126)
Ali ‘Imran (Q3:126)
Isto tomamos como uma verdade sagrada e inviolável.
This we hold as a sacred, inviolable truth.
Uma vez que compreendemos a natureza tóxica do modernismo, torna-se fácil reconhecer o seu efeito sobre a mente muçulmana. Como podem o progressismo do modernismo e o tradicionalismo do Islã coexistir na mesma mente e no mesmo coração? Como se pode simultaneamente acreditar na narrativa progressista — ou seja, que o dia de hoje é o auge do avanço moral e intelectual contínuo da humanidade — e também acreditar que a melhor geração foi a geração do Profeta ﷺ e depois a dos Salaf virtuosos? Logicamente, não se pode. Ainda assim, a mente colonizada se contorce e se retorce para conciliar as duas coisas. Talvez a resposta esteja em reformar o Islã, atualizando a religião e ajustando-a aos padrões vigentes. Talvez tudo o que existe no Islã que é anti-liberal, anti-secular, anti-feminista, anti-materialista, anti-cientificista, etc., possa ser eliminado da religião.
Once we understand the toxic nature of modernism, it becomes easy to recognize its effect on the Muslim mind. How can the progressiveness of modernism and the traditionalism of Islam coexist in the same mind and heart? How can one simultaneously believe the progressive narrative—viz., that the present day is the peak of continuous human moral and intellectual advancement—whilst also believing that the best generation was the generation of 8 The Modernist Menace to Islam the Prophet صلى الله عليه وسلم and then the righteous Salaf? Logically, one cannot. Yet, the colonized mind will twist and contort in order to reconcile the two. Perhaps the answer lies in reforming Islam, bringing the religion up to date and up to code. Perhaps everything in Islam that is anti-liberal, anti-secular, anti-feminism, anti-materialism, anti-scientism, etc., can be expunged from the religion.
Tais pensamentos constituem a fonte de inúmeras dúvidas no Islã que estão afligindo alguns muçulmanos nos dias de hoje. Diante dessa tensão, a tendência — alimentada por um ambiente poluído pelo forte odor do modernismo — é distorcer o Islã, dobrando-o ao molde estabelecido pelo modernismo. Os muçulmanos que têm tais dúvidas seriam mais bem servidos ao romper com esse molde modernista, em vez de tentar deturpar o Caminho Reto que é o Islã. Romper com sucesso esse molde modernista exige desmascarar os -ismos e desencantar esses muçulmanos do falso ouro que o modernismo vende. Uma vez que a mente muçulmana seja desprogramada, descolonizada, desmodernizada e limpa dos resíduos radioativos do Ocidente, então, mais uma vez, a luz pura do Islã poderá brilhar.
Such thoughts constitute the source of numerous doubts in Islam that are plaguing some Muslims in this day and age. In response to this tension, the tendency— nurtured by an environment polluted with the heavy stench of modernism—is to distort Islam, bending it to the mold set by modernism. Muslims who have such doubts would be better served by breaking that modernist mold rather than attempting to warp the Straight Path that is Islam. Successfully breaking this modernist mold requires debunking the -isms and disenchanting these Muslims from the false gold modernism sells. Once the Muslim mind is deprogrammed, decolonized, demodernized, and cleared of the radioactive waste products of the West, then once again the pure light of Islam can shine through.