5.1 Pesquisa de Especialista (ijtihād)
5.1 Expert Research (ijtihād)
Linguisticamente, *Ijtihād* é o empenho do máximo esforço para realizar algo que implica um certo grau de desconforto e dificuldade. Quanto à definição dos estudiosos do Usul, trata-se especificamente da dedicação de energias na busca de uma opinião preponderante (*zann*) sobre um assunto das regras da Sharī'ah, de tal maneira que o mujtahid sente não ser capaz de empenhar-se mais.
Linguistically Ijtihād is the exertion of ones utmost effort to realise a matter which entails a measure of discomfort and difficulty. As for the definition of the Usuli scholars, it is specifically the expenditure of ones energies in seeking a preponderant opinion (zann) about a thing from the Sharī’ah rules in a manner the mujtahid feels unable to exert any more.
A ijtihad foi comprovada pelo texto do hadith. Foi narrado sobre o Profeta ﷺ que ele disse a Abu Musa quando o enviou ao Iêmen:
Ijtihād has been proven by the text of the hadīth. It has been narrated about the Prophet that he said to Abu Musa when he sent him to Yemen:
"Julgue pelo Livro de Allah; e se não encontrar (solução nele), então pela Sunnah do Mensageiro de Allah ﷺ. E se não encontrar nela, então exerça o seu próprio Ijtihād."
“Judge by the book of Allah and if you do not find (solution there) then by the Sunnah of the Messenger of Allah. And if you do not find it there then exercise your own Ijtihād”
E foi narrado a respeito dele que disse a Mu'adh e Abu Musa al-Ash'ari, ao enviá-los ao Iêmen:
And it has been narrated about him that he said to Mu’az and Abu Musa al-Ash’ari having dispatched them to Yemen:
“Com base em que você julgará?” Eles disseram: “Se não encontrarmos o ḥukm no Kitāb e na Sunnah, faremos qiyās entre duas questões. Aquilo que estiver mais próximo da verdade, agiremos de acordo com isso.”
“By what will you judge?’ They said: If we do not find the hukm in the Kitab and the Sunnah we will make analogy between two issues. Whatever is closer to the truth we will act upon that”
Esta analogia (qiyas) é ijtihad, pela qual se deriva o hukm, e o Profeta ﷺ a aceitou deles. Foi relatado sobre ele ﷺ que disse a Mu'adh, quando o enviou como Wali (governador) ao Iêmen:
This Analogy (qiyas) is Ijtihād by deriving the hukm and the Prophet accepted it from them. It has been reported about him that he said to Mu’az when he sent as Wali (governor) to Yemen:
“Com base em quê você julgará?” Ele respondeu: “No Livro de Allah.” O Profeta ﷺ disse: “E se você não o encontrar nele?” Ele disse: “Na sunnah do Mensageiro de Allah ﷺ.” Ele disse: “E se você não a encontrar?” Ele disse: “Então exercerei meu próprio ijtihad.” Ele disse: “Louvado seja Allah, que fez o mensageiro do Mensageiro de Allah concordar com aquilo que Allah e Seu Mensageiro amam.”
“By what will you pass Judgement ?’ He said: By the Book of Allah. The Prophet said: If you do not find it there ? He said: By the sunnah of the Messenger of Allah . He said: And if you do not find it ? He said: ‘I will exercise my own Ijtihād’ He said: ‘Praise be to Allah who has made the messenger of the Messeneger of Allah to accord with what Allah and His Messenger loves”
Isto é claro na aceitação do Profeta ﷺ da intenção de Mu'adh de praticar o Ijtihad, e não há ninguém que conteste a legalidade do Ijtihad. Além disso, houve um ijma' (consenso) dos Sahabah sobre a questão de julgar por uma opinião que foi deduzida das evidências da Sharī'ah, ou seja, concordaram quanto ao uso do Ijtihad em qualquer caso que ocorra para o qual não se tenha encontrado um texto (claro). E isto chegou até nós através de relatos sucessivos (tawatur), nos quais não há dúvida. Um desses relatos é o dito de Abu Bakr, quando lhe perguntaram sobre a Kalala. Ele disse: "Falarei sobre ela de acordo com a minha opinião. Se estiver correta, então é de Allah. Se for um erro, então é de mim e do Shaytan, e Allah não tem nada a ver com isso. Kalala é aquele que não deixou filhos nem pais." A sua afirmação: "Falarei sobre ela de acordo com a minha opinião" não significa que esta opinião seja dele. Antes, significa: direi de acordo com o que entendo da expressão "Kalala" no versículo. Kalala, na língua árabe, aplica-se a três tipos de pessoas: aquele que não deixou filho nem pai, ou aquele que não tem filho nem pai entre os seus descendentes, e os parentes que não sejam da linha do filho ou do pai. Então, qual destes significados se aplica à palavra kalala no versículo? Abu Bakr entendeu que ela tinha um desses significados, na Sua palavra:
This is clear in the Prophet’s acceptance of Mu’az’s intention to practise Ijtihād and there is no one who disputes the legality of Ijtihād. Furthermore, an ijma’ (consensus) of the Sahabah took place on the issue of judging by an opinion which has been deduced from the Sharī’ah evidence i.e, they have agreed on the use of Ijtihād on any incident that takes place for which no (clear) text has been found. And this is what has reached us in successive reports (tawatur) in which there is no doubt. One such report is the saying of Abu Bakr when he was asked about the Kalala. He said: ‘I will speak about it according to my opinion. If it is correct then it is from Allah . If it is a mistake then it is from me and from Shaytan and Allah has nothing to do with it. Kalala is the one who has no children or parents left.’ His statement: ‘I will speak about it according to my opinion’ does not mean this opinion is from him. Rather it means I will say according to what I understand from the expression ‘Kalala’ in the verse. Kalala in the Arabic language applies to three people; the one who did not leave a child or parent or the one who does not have a son or a father from his descendants and the relatives from other than the direction of the child or father. So which of these meanings would apply to the word kalala in the verse ? Abu Bakr understood it to have one of those meanings in His saying:
"Se o homem ou a mulher cuja herança está em questão não deixou nem ascendentes nem descendentes" [TMQ Nisā’: 12]
“If the man or woman whose in hereitence is in question has left niether ascendents or descendents” [TMQ Nisā’: 12]
Kalala é o predicado (khabar) do verbo "ser/estar" (kana), isto é, se o homem não deixar ascendentes nem descendentes para herdar após ele. Ele provavelmente entendeu isso também pelo segundo versículo:
Kalala is the predicate (khabar) of the verb ‘to be’ (kana) i.e, if the man leaves no ascendents or descendents to inherit after him. He probably understood this also from the second verse:
Diga: "Allah lhes dá esta orientação sobre al-Kalala (aqueles que não deixam nem descendentes nem ascendentes como herdeiros). Se é um homem que morre sem deixar filho"
“Say: “ Allah directs (thus) about al-Kalala (those who leave niether descendents nor ascendents as heirs). If it is a man that dies leaving no child”
E também do hadīth que foi relatado sobre a causa da revelação do versículo:
And also from the hadīth which has been reported about the cause of the verse:
Diga: "Allah guia (assim)." [TMQ Nisā’: 176]
“Say: “ Allah directs (thus).” [TMQ Nisā’: 176]
Foi relatado que o Mensageiro de Allah ﷺ visitou Jabir ibn 'Abd Allah, que estava doente. Ele disse: "Não deixo ascendentes nem descendentes. O que devo fazer com a minha riqueza?" Assim, foi revelado o versículo:
It has been reported that the Messenger visited Jabir ibn ‘Abd Allah who was ill. He said: I leave no ascendents or descendants. What shall I do with my wealth? Thus the verse:
"Se é um homem que morre" [TMQ Nisā’: 176]
“If it is a man that dies” [TMQ Nisā’: 176]
foi revelado em resposta à pergunta de Jabir. Esta opinião que Abu Bakr expressou é um Ijtihād e não procede de si mesmo. Também a partir deste Ijtihād, Abu Bakr incluiu a avó materna na herança, com exclusão da avó paterna. Alguns dos Ansar disseram-lhe:
was revealed in response to the question of Jabir. This opinion which Abu Bakr stated is an Ijtihād and it does not emanate from himself. Also from this Ijtihād Abu Bakr included the mothers mother in the inheritance to the exclusion of the father’s mother. Some of the Ansar said to him:
"Você dá herança a uma mulher de uma pessoa falecida que não herdaria dela caso ela tivesse morrido. No entanto, você ignorou uma mulher que, caso tivesse morrido, ele teria herdado tudo o que ela deixou para trás."
‘You give inheritance to a woman from a deceased person who would not inherit from her if she died. Yet you ignored a woman, who if she had died, he would have inherited everything she left behind.’
Então Abu Bakr deu às duas avós partes iguais na herança. Abu Bakr também costumava dar presentes iguais aos muçulmanos. ‘Umar disse-lhe a respeito deste assunto:
So Abu Bakr gave both grandmothers equal shares in the inheritance. Abu Bakr also used to give equal gifts to the Muslims. ‘Umar said to him concerning this matter:
"não coloque no mesmo nível aqueles que emigraram por causa do Profeta ﷺ e deixaram para trás seus lares e riquezas e aqueles que abraçaram o Islã sob coação."
‘do not put those who emigrated for the Prophet and left their homes and wealth behind on an equal footing with those who embraced Islam under duress.’
Abu Bakr respondeu:
Abu Bakr answered:
"Eles abraçaram o Islã por causa de Allah, e a Dunya não é senão uma mensagem (Balagh)."
‘They embraced Islam for the sake of Allah , and the Dunya is nothing but a message (Balagh).’
Assim como ʿUmar disse:
Likewise ‘Umar said:
Eu julgo a respeito do avô paterno (pai do pai) pela minha opinião e me pronuncio sobre ele de acordo com a minha opinião, isto é, de acordo com a compreensão dele dos textos.
‘I judge concerning the paternal grandfather (father’s father) by my opinion and state concerning it according to my opinion. i.e. according to his understanding of the texts’
No tempo de ‘Umar, uma mulher faleceu deixando um marido, uma mãe, dois irmãos por parte de mãe e dois irmãos por parte de pai. ‘Umar primeiro pensou que os irmãos por parte de mãe deveriam receber o terço como seu direito, mas isso não deixava nada para os irmãos por parte de pai. Os irmãos por parte de pai aproximaram-se de ‘Umar e disseram-lhe:
n the time of ‘Umars rule a woman passed away leaving behind a husband, mother, two maternal brothers and two paternal fathers. ‘Umar first thought that the maternal brothers should have the third as their right, but this left nothing to the paternal brothers. The paternal brothers approached ‘Umar and said to him:
"Suponha que nosso pai seja apenas um asno (em outras narrações, uma pedra): ainda assim, não somos todos filhos da mesma mãe?"
‘Assume that our father is but a donkey (in other narrations, a stone) – are we still not of one mother?’
Assim, ʿUmar mudou de opinião e deu a todos os irmãos partes iguais no terço, apesar de os Sahabah terem julgado de maneira diferente. Eles tinham dado ao marido metade da herança, a mãe recebeu um sexto da herança, como determinado no texto, e o último terço foi dado aos irmãos uterinos, também determinado no texto, deixando assim nada para os irmãos consanguíneos. ʿUmar entendeu que os irmãos uterinos eram irmãos do falecido pelo lado materno, mas isso se aplicava não apenas aos irmãos uterinos, mas também aos irmãos consanguíneos. A mãe era o fator comum entre todos eles, então, quando nada havia sido deixado para os irmãos consanguíneos, o direito deles era o que mereciam dos irmãos uterinos. O restante dos Sahabah viu a questão de forma diferente; eles entenderam o texto e fizeram seu próprio Ijtihād. Considere também o caso de um muçulmano, chamado Samrah, que tomou de um comerciante judeu uma décima parte de bebida alcoólica (como taxa alfandegária), engarrafou-a e depois a vendeu. Então ʿUmar disse
So ‘Umar changed his mind and gave all the brothers equal shares in the third, in spite of the fact the Sahabah had judged differently. They had given the husband one half of the inheritance, one sixth of the inheritance was given to the mother as decreed in the text, and the final third was given to the maternal brothers as also determined in the text, thus leaving nothing for the paternal brothers. ‘Umar understood that the maternal brothers were brothers of the man from his mother’s side, but this applied not just to the maternal brothers but also to the paternal brothers. The mother was the common factor between them all, so when nothing had been left to the paternal brothers, their right was of what they deserved from the maternal brothers. The rest of the Sahabah saw it differently; they understood the text and made their own Ijtihād. Consider also the case when a Muslim, named Samrah took from a Jewish merchant a tenth portion of alcohol (as customs), bottled it and then sold it. So ‘Umar said
“Que Allah combata Samrah. Ele não sabe que o Profeta ﷺ disse: ‘Que Allah amaldiçoe os judeus. A gordura lhes foi proibida, então eles a enfeitaram e a venderam.’”
“May Allah fight Samrah. Does he not know that the Prophet said: ‘May Allah curse the Jews. The fat was made Haram upon them, so they ornamented it and sold it.’”
Neste caso, ‘Umar fez a analogia entre o álcool e a gordura, e que a proibição dele significava a proibição do seu preço de venda. Um outro exemplo de Ijtihād é o que ‘Ali disse a respeito da punição (Hadd) pelo crime de beber álcool. Ele disse:
In this case, ‘Umar made the analogy between the alcohol and the fat, and that prohibition of it meant prohibition of its selling price. A further example of Ijtihād is what ‘Ali said regarding punishment (Hadd) for the crime of drinking alcohol. He said:
"Quem o bebesse falaria disparates, e quem assim fizesse inventaria mentiras; por isso vejo que ele deve ser punido como o inventor de mentiras."
‘Whoever drinks it will speak nonsense, and who did so would fabricate lies, so I see that he must be punished like the fabricator of lies.’
Assim como ‘Umar no exemplo anterior, ‘Ali fez uma analogia entre beber e a fabricação de mentiras, pois compreendeu a partir da Shar'a que aquilo que é provável que aconteça é tratado da mesma forma que aquilo que de fato acontece. Isso é como quando a Shar'a tratou o sono da mesma forma que a impureza ritual, e o ato da relação sexual, ao exigir o ‘Iddah (período legal que a mulher aguarda após o divórcio antes de se casar novamente), da mesma forma que se o útero tivesse sido ocupado (engravidado). Todos esses são exemplos de Ijtihād pelos Sahabah e de Ijma' as-Sahaba sobre a questão do Ijtihād.
Like ‘Umar in the previous example, ‘Ali made an analogy between drinking and fabrication of lies because he understood from Shar’a that which is likely to happen is treated the same as that which happens. This is like when the Shar’a treated sleeping the same as ritual impurity, and the act of sexual intercourse in requiring the Iddah (legal period a woman waits after divorce for marriage) the same as if the womb had become engaged (pregnant). All these are examples of Ijtihād by the Sahabah and Ijma’a as-Sahaba on the issue of Ijtihād.
A aplicação de um hukm às questões que nele se enquadram não é considerada Ijtihād, mas apenas a compreensão da norma da Sharī'ah. Visto que o Ijtihād é a dedução de um hukm a partir do texto, seja a partir de sua literalidade (mantooq), de sua compreensão (mafhoom), ou de sua indicação (dalalah).
The application of a hukm on issues which are classified under it is not considered Ijtihād rather but only as the comprehension of the Sharī’ah rule. Since Ijtihād is the inference of a hukm from the text whether from its wording (mantooq), understanding (mafhoom), from its indication (dalalah)
ou a partir da ʿillah que foi mencionada no texto. Seja a inferência de um ḥukm kullī a partir de um dalīl kullī; por exemplo, a inferência de que uma punição deve ser imposta ao ladrão, uma vez que o Legislador estabeleceu a amputação da mão como punição ḥadd para o roubo. Ou a inferência pode ser de um ḥukm juz'ī a partir de um dalīl juz'ī; como a dedução do ḥukm da locação, visto que o Profeta ﷺ
or from the ‘illah which has been mentioned in the text. Whether the inference was an inference of a comprehensive hukm (hukm kulli) from a comprehensive evidence (dalīl kulli); for example, the inference that a punishment should be imposed on the thief since the legislator made the cutting of the hand a hadd punishment for theft. Or the inference could be of a partial hukm (hukm juz’i) from a partial evidence (dalīl juz’i); such as the deduction of the hukm of hiring since the Prophet PBUH
“(O Profeta ﷺ) contratou um trabalhador dos Banu al-Du’l como guia experiente.” [Relatado por Bukhari] E de Seu dizer:
“(The Prophet PBUH) Hired a worker from Bani al-Du’l as an experienced guide” [Reported by Bukhari] And from His saying:
"Então, se elas amamentarem os filhos para vocês, deem-lhes o seu pagamento devido" [TMQ Talaaq: 6]
“Then if they give suck to the children for you, give them their due payment” [TMQ Talaaq: 6]
Ou como a inferência do hukm de pagar ao trabalhador o seu salário depois de ele ter terminado o seu trabalho, devido ao dito do Profeta ﷺ:
Or like the inference of the hukm of giving the worker his wage after he has finished his work due to the Prophet’s saying:
"Dê ao trabalhador o seu salário antes que o seu suor seque" [Reported by Ibn Majah on Behalf of Abdullah Ibn Umar]
“Give the worker his wage before his sweat dries” [Reported by Ibn Majah on Behalf of Abdullah Ibn Umar]
É uma evidência parcial para um hukm parcial. Assim, esta inferência de um hukm abrangente a partir de uma evidência abrangente e a inferência de um hukm parcial a partir de uma evidência parcial, tudo isso é considerado Ijtihād, porque é a adoção de um hukm a partir de um dalīl, quer o hukm seja geral, extraído de uma evidência geral, quer seja específico, extraído de uma evidência específica. Tudo isso constitui empregar o máximo esforço na compreensão do hukm a partir da evidência. Quanto à aplicação do hukm a novas questões que se enquadram em seu significado ou que são classificadas sob ele por serem um de seus componentes, isso não é considerado Ijtihād. Por exemplo, Allah proibiu a carniça. Quando uma vaca é morta com um golpe na cabeça até morrer, sua carne não é comida, porque morreu como carniça e não foi abatida de forma legal, e a carne de carniça é harām. E o hukm da carne enlatada, que provém de uma vaca que não foi abatida de forma legal, comê-la e vendê-la é harām na Sharī'ah. Este hukm não foi deduzido; ao contrário, ele se enquadra na palavra "carniça". Por exemplo, os animais abatidos pelos drusos não são comidos porque não foram abatidos por um muçulmano ou por alguém do povo do Livro. Assim, este hukm, ou seja, a proibição de comer o animal abatido pelos drusos, não foi deduzido. Ao contrário, um hukm já conhecido foi aplicado a ele, que é a proibição de comer os animais abatidos por descrentes que não são do povo do Livro. Por exemplo, a permissibilidade de a mulher ser membro do majlis al-Shura é uma regra da Sharī'ah. Este hukm não foi deduzido; ao contrário, o hukm da Wikala (representação) foi aplicado a ele. A participação no majlis al-shura é a representação de uma opinião. É permitido à mulher delegar outros para apresentar opiniões, e ela pode representar outros em sua opinião. Por exemplo, o Zakat não é dado a ninguém além daquele que é pobre, e sua pobreza é comprovada por indícios conjecturais, para os quais foram apresentadas provas que justificam sua consideração legal. O julgamento não é proferido sem o testemunho de uma pessoa justa ('adl), e sua idoneidade ('adala) é conhecida com a menor margem de dúvida. Da mesma forma, alguém que faz investigações para descobrir a qibla (direção da oração) até que ela seja conhecida após a averiguação, e outros exemplos semelhantes. Todas essas questões não são alcançadas por meio do Ijtihād, que é a inferência de regras a partir das evidências da Sharī'ah, mas sim pela aplicação das regras sobre questões particulares (juz'iyyat), ou pela compreensão das questões particulares e pela aplicação das decisões sobre elas. Essa prática se enquadra no âmbito da judicatura (qadā') e não pertence ao Ijtihād. Essa prática não é considerada Ijtihād porque não determina uma regra específica da Sharī'ah, mas apenas aplica uma regra da Sharī'ah a um caso que já foi decidido e compreendido. Quando outro caso do mesmo tipo acontece, a regra é aplicada a ele da mesma forma que ao caso inicial, e por isso não é considerada Ijtihād. As regras da Sharī'ah exigem aplicação depois de compreendidas a partir da evidência, e não Ijtihād, o que contraria os textos da Sharī'ah que exigem o Ijtihād para se adotar o ḥukm Sharʿī. Portanto,
"O ijtihad legítimo é o empenho máximo para compreender os textos da Sharī'ah, a fim de deduzir a partir deles o julgamento. Não é o empenho máximo na aplicação das regras da Sharī'ah às questões que estão classificadas sob ela."
“The legitimate Ijtihād is exertion of ones utmost to understand the Sharī’ah texts in order to deduce the ruling from it. It is not the exertion of ones utmost in applying the Sharī’ah rules on the issues that are classified under it.”
Os textos da Sharī'ah islâmica exigem que os muçulmanos pratiquem o Ijtihād. Isto porque os textos da Sharī'ah não vieram de forma detalhada, mas sim de forma ambígua (mujmal), aplicável a todos os acontecimentos que envolvem a humanidade. Compreendê-los e deduzir deles o ḥukm de Allah requer o dispêndio de esforço para adotar o ḥukm Shar'ī para cada acontecimento. Mesmo os textos que vieram de forma elaborada e tratam de detalhes são, de facto, gerais ('amm) e ambíguos (mujmal). Por exemplo, os versículos da herança vieram de forma elucidativa e tratam de minúcias, apesar de, quanto às regras parciais, ainda exigirem compreensão e dedução em muitas questões, como a questão do kalāla e as questões da exclusão de herdeiros (ḥajb). Todos os Mujtahidūn sustentam que o filho ou a filha têm precedência na herança sobre os irmãos do falecido, porque a palavra "walad" (filho/criança) se refere aos filhos de ambos os sexos. Ibn 'Abbās defende que a rapariga não tem tal papel, porque a palavra "Walad" se refere apenas ao sexo masculino. Isto mostra que mesmo os textos que tratam diversas questões em detalhe vieram como ambíguos (mujmal), e que compreender e deduzir um ḥukm a partir deles requer Ijtihād. No entanto, estes textos que tratam de detalhes exigem aplicação a acontecimentos novos. Esta aplicação, porém, não é o que se entende por Ijtihād. O que se pretende é a inferência de um ḥukm a partir do seu conteúdo ambíguo/equívoco (mujmaliha); mesmo que tratem de detalhes, são gerais ('amm) e ambíguos/equívocos (mujmal), pois são textos legislativos. É da natureza dos textos legislativos serem gerais e ambíguos/equívocos (mujmal), ainda que se detenham em pormenores. Os textos da Sharī'ah, quer provenham do Qur'ān quer da Sunnah, são: os melhores textos legislativos para o campo do pensamento, o campo de generalização mais amplo e o terreno mais fértil para cultivar princípios gerais. E são apenas eles adequados como textos legislativos para todos os povos e nações. Quanto a serem os melhores textos para o campo do pensamento, isso é observável pela forma como abarcam todos os tipos de relações. Isto porque as relações de todos os tipos, sejam relações entre indivíduos, sejam relações entre o Estado e os cidadãos, sejam relações entre estados, povos e nações, por mais novas e variadas que sejam essas relações, o pensamento é capaz de deduzir delas, a partir desses textos da Sharī‘ah, as regras para elas. Portanto, são os melhores textos para o campo do pensamento entre todos os textos legislativos. Quanto a terem eles o melhor alcance para a generalização, isso é claro a partir de suas frases, palavras, estilo de formulação (expressões), em termos de sua abrangência do enunciado (mantuq), do entendimento (mafhum), do significado (dalāla) e da justificação (ta’leel), e da analogia com a ‘illah, que torna possível, permanente e inclusiva a inferência para cada ação. Isso garante que sejam capazes de abarcar tudo, sendo completos e gerais. Quanto a serem o terreno mais fértil para cultivar princípios gerais, isso se evidencia pela abundância de significados gerais que esses textos contêm e pela natureza desses significados gerais. Isso porque o Alcorão e o ḥadīth vieram em linhas amplas, mesmo ao tratar de detalhes. A natureza dessas linhas amplas é que conferem ao Kitab e à Sunnah significados gerais sob os quais podem ser classificadas questões gerais e específicas, e é daí que provém a abundância de significados gerais. Além disso, esses significados gerais contêm questões reais e perceptíveis, e não questões hipotéticas alcançadas de modo teórico ou lógico; e ao mesmo tempo existem para resolver os problemas do ser humano, e não apenas de indivíduos específicos, ou seja, para esclarecer a regra para a ação dos seres humanos, qualquer que seja a manifestação instintiva que os tenha levado a essa ação. É por isso que elas são aplicáveis a diversos significados e a muitas decisões. Assim, os textos da Sharī’ah são o terreno mais fértil para a produção dos princípios gerais (qawā’id ‘Aammah).
"Se um juiz profere uma sentença e faz Ijtihad e acerta, terá duas recompensas. E se erra, terá uma recompensa." [Relatado por Bukhari e Muslim]
“If a judge passes judgment and makes Ijtihād and he is right then he will have two rewards. And if he makes a mistake he will have one.” [Reported by Bukhari & Muslim
Os Sahabah formaram um ijma' (consenso) de que o pecado é retirado dos mujtahidun nas regras da Sharī'ah no que diz respeito às questões fiqhiyyah (jurisprudenciais) especulativas. Quanto às questões definitivas, como a obrigatoriedade dos atos de culto, a proibição da fornicação e do homicídio, não há ijtihad nem divergência a seu respeito. É por isso que os Sahabah divergiram nas questões especulativas e não nas questões definitivas.
The Sahabah formed an ijma’ (consensus) that the sin is taken off from the Mujtahiddin in the Sharī’ah rules in terms of the speculative fiqhi (jurisprudential) issues. As for the definite issues such as the obligation of the worships, prohibition of fornication and murder there is no Ijtihād or dispute with respect to them. That is why the Sahabah disagreed on the speculative issues and not on the definite issues.
O mujtahid nas questões especulativas acerta naquilo a que chegou por meio do seu ijtihād, ainda que esteja sujeito a errar em sua opinião. No entanto, estar certo não significa que ele tenha atingido o alvo verdadeiro, pois isso não concorda com a realidade de uma regra especulativa, uma vez que o Mensageiro de Allah ﷺ o chamou de mukhti’ (aquele que errou). Antes, o que se quer dizer ao afirmar que o mujtahid está certo é em termos que não excluem o erro, e não em termos de atingir o alvo verdadeiro (isaba), que é o oposto do erro. Assim, descrever como correto (musib) quem erra no ijtihād tem o sentido de que o texto recompensa o mujtahid mesmo quando ele erra, e não no sentido de que ele não cometeu erro. Portanto, todo mujtahid está certo segundo aquilo que considera correto, o que não exclui o erro. Trata-se de acertar em sentido amplo, e não de atingir o alvo verdadeiro.
The mujtahid in the speculative issues is correct in what he has arrived at by his Ijtihād even if he is liable to make a mistake in his opinion. However, being correct does not mean that he has hit the true target because this does not agree with the reality of a speculative rule since the Messenger called him a mukhti’ (one who has made a mistake). Rather what is meant by saying that the mujtahid is right is in terms that do not rule out a mistake and not in terms of hitting the true target (isaba) which is the opposite of mistake. So describing someone who makes a mistake in Ijtihād as right (musib) is in the meaning that the text rewards the mujtahid even when he makes a mistake and not in the sense that he did not make a mistake. Therefore, every mujtahid is right according to what he thinks is right which does not rule out mistake. It is in terms of getting it right and not in terms of hitting the true target.